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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Carência













Carência


Magnólia andava com passos rápidos e nervosos pelos corredores da repartição onde trabalha, e pelas ruas engarrafadas, e nas estações de metrô.

Era mais uma mania que adotara ao longo dos anos, além da necessidade de pouca luminosidade e silêncio no horário das  suas refeições, o uso constante de roupas bem largas,  de sandálias rasteiras, bolsas em tecido rústico e zíper,  cuecas de algodão (abandonara as rendinhas), mais a tragédia da insônia,  da negação de abraços e beijos, entre tantas outras expiações.

 Ela sentia uma necessidade enorme de estabelecer novos princípios na sua vida. Por isso, numa atitude de proteção, escondia dentro das roupas largas suas curvas e mantinha uma certa distância das pessoas, que invariavelmente são curiosas, para que não a percebessem, bem como a sua busca por conteúdos e valores e significados no complexo mundo humano.

Quando começou essa alteração de comportamento, Magnólia não sabe precisar. Talvez seja decorrente da quebra de algum paradigma relativo a seu relacionamento afetivo, a partir da constatação de que o amor pode ser usado como uma arma destrutiva.

Casou, há muito tempo, por amor, e cria que esse sentimento seria bastante, que jamais poderia ser instrumento de chantagem emocional e de subjugação  psicológica. Ledo engano.

As circunstâncias e  covardia contribuíram para que permanecesse com seu consorte,  por quase décadas, sem amor & sexo.

Para manter as aparências, matou o amor em si, mas não se livrou das viciantes expectativas amorosas adquiridas por ter se jogado de corpo e alma naquele enlace.

Então evitava abraços e beijos, não por indiferença, mas por carência, que a impelia a querer mais e mais, e, segundos depois, a chorar mais e mais, pela falta de sentido. O que não caía bem para uma mulher ainda comprometida.

Ainda assim, Magnólia amiúde suspira imaginando-se envolvida nos braços de um amor ainda não encontrado, sem rosto, voz, cheiro. E logo volta a si, sem esperança no olhar,  pois sabe que o amor não convive com ilusão nem meras aparências.

Ela tem noção do quanto pode parecer esquisita. Entretanto, aprendeu, com seu sofrimento, que, embora o amor surja espontaneamente, para que ele cresça e permaneça,  precisa da vontade, compromisso, lealdade e prática dos envolvidos. O amor exige infinitamente mais que belas palavras, toques e promessas.


http://www.recantodasletras.com.br/contos/5760340

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Parque de diversão




Parque de diversão


Se tudo que se quer é prazer,
Que seja feita a vontade.
Dê-me o endereço e a hora
Do encontro no
Parque
De diversão.

Vou experimentar todos os
Brinquedos.
E você vai
Se divertir demais.

 O que mais me alegra é
 A montanha russa,
Seu sobe e desce me entontece.
E há o trecho de 360 graus, 
Em que fico de cabeça
 Para baixo ou o lado, 
E me percebo Substituta
 Provisória, convocada por
Razões e valores diversos
Dos que me fizeram
 Aceitar o convite.

 Mas que não se atente
A isso, pense apenas
Na diversão, na tensão
Do sobe e desce,
Na liberdade plena
Sendo exercida,
Na comoção dos meus dedos afundando, na Superfície em que
Débeis se agarram, num
Misto de loucura,
Gozo, medo e dor,
Pressinta a adrenalina
Permanente,
Até a sensação
De paz alcançada,
Num triunfante final, com sentimentos inomináveis.


 http://www.recantodasletras.com.br/poesias/5178582

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Nem sempre Lily toca flauta




Nem sempre Lily toca flauta

Quando junta uma multidão,
No mercado da Boa Vista, ela
Busca pastéis  de Belém
E sonhos,
Na padaria Santa Cruz.


Quem vem para folia
Vem com sua fantasia,
Pronto para brincar.
No meio de toda alegria,
Encontra Lily com seu doce,
"Solta na buraqueira",
Feliz da vida a cantar.


Lily nem sempre toca flauta,
No Carnaval, ela vai desfilar
Acompanhada da Colombina,
Do Arlequim e do Pierrot,
Lily vai descansar da lida,
Tirar da boca o pífano, para
Pôr o doce da vida.

http://www.recantodasletras.com.br/audios/cancoes/68733